Direção: Kevin Macdonald.
Elenco/Vozes: Forest Whitaker, James McAvoy, Kerry Washington, Gillian Anderson, Simon McBourney.
Quem não assistiu a esse filme antes do Oscar e outras premiações foi, assim como eu, enganado. Fomos levados a crer que tratava-se meramente de um filme com uma estupenda atuação de Forest Whitaker (Quarto do Pânico, Platoon), em sua personificação do ditador africano Idi Amim, de Uganda. Já assisti a muitos filmes apenas para ver atuações marcantes, e dependendo do ator pode ater valer a pena. Mas essa não é a realidade do excelente O Último Rei da Escócia, que apesar de ter de fato a atuação mais marcante do ano (quem sabe da década), possui muitos outros pontos positivos à altura do gigantesco Whitaker.
O filme toma uma perspectiva bem inusitada, trazendo um clima especial para o filme. Se não fosse pelo rosto estampada do General Amim no pôster do filme ou o conhecimento geral que temos sobre a história do ditador, ficaria difícil saber que se trata de uma história sobre as barbaridades do continente africano. O filme foge totalmente a linha de dramas como Hotel Rwanda, possuindo um clima leve e irônico no ar, muitas vezes até cômico. O diretor Kevin MacDonald, aclamado documentarista, busca não focar exclusivamente na parte histórica e pesada da trama, mas sim destacar o lado humano de todas as personagens e centrar a história no fictício Nicholas Carrigan, jovem médico escocês muito bem interpretado por James McAvoy (Band of Brothers).
E é exatamente a personagem do médico que traz um bom ar ao filme. Conhecemos mais sobre ele do que sobre o próprio ditador, acompanhamos toda a sua aventura e sofremos com seus erros e tensões. O estilo um tanto irreverente, despreocupado do escocês é trabalhado durante a história, e torna-se um fato importante para aproximação dele com o General Amim. O filme conta desde a sua decisão de ir para a África até o complicado final da sua história no país de Uganda. E conta a sua amizade com Idi Amim, que se inicia após Nicholas assistir, junto a personagem de Gillian Anderson (Arquivo X), a um discurso do novo presidente. Ao tratar medicamente Amim numa situação inusitada, agir de forma destemida mesmo na frente do exército, e finalmente contar-lhe que é escocês, Nicholas acaba chamando a atenção do General, que rapidamente o influencia a se tornar médico particular do presidente, e a largar o trabalho que estava fazendo por uma vida de nobreza como amigo e conselheiro pessoal de Amim.
A partir daí o filme centra nas duas personagens, Amim e Nicholas, e trabalha intensamente o relacionamento entre eles e as suas personalidades. Vemos um lado bem humano do ditador, muitas vezes infantil e engraçado, outras vezes inconseqüente. Nesse momento as tensões aumentam, o clima fica bem mais pesado, e pouco a pouco o General Amim mostra seu senso de egocentrismo e abuso de poder. Enquanto isso o médico se envolve em diversas situações, como traições e influências políticas. Até que as verdadeiras intenções do ditador ficam mais claras, e a vida do próprio Nicholas, cada vez mais preso àquele país e ao próprio Amim, passa a correr perigo.
Apesar do tema sério e pesado que o filme trata, a visão humana que foi proposta para o drama foi certamente um ponto forte. Esquecemos o tão comum maniqueísmo, e passamos a conhecer os lados opostos dos protagonistas e antagonistas. Acompanhamos as inúmeras falhas do médico escocês, que com seu estilo também inconseqüente acaba trazendo infortúnio para muitas pessoas próximas a ele. E vemos também o melhor lado do General, sua admiração pela cultura escocesa, seu lado bem humorado e amigo, sua honra e dedicação. Trata-se de um excelente e honesto filme sobre seres humanos. Numa das cenas mais emocionantes do cinema recente não é por sofrimento e dor que vemos lágrimas serem derramadas, mas por amizade e compaixão. As lágrimas são do próprio ditador.
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