Direção: Christopher Nolan.
Elenco/Vozes: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Michael Caine.
Onze anos. Foram necessários onze anos para que um filme seguisse os passos de Matrix (1999) e nos presenteasse com uma ficção científica tão digna. A espera valeu a pena. A Origem – novo filme do diretor que chamou nossa atenção com Amnésia, renovou a série Batman e se consagrou como diretor versátil em O Grande Truque – é a maior ficção científica da década, e um dos melhores filmes até aqui já feitos, independente de que categoria ou rótulo queira atribuí-lo.
Nós já sabíamos que nada é real, que tudo é possível – vimos Matrix; já sabíamos que a mente é capaz de sonhos complexos, de resgatar as memórias mais escondidas, e de proteger quem nós somos – assistimos Brilho Eterno. E sabíamos que ao criar histórias e personagens nossa mente muitas vezes se confunde, se engana, nos trai – vimos Sinédoque, NY. O que não sabíamos é que dentro de uma mente humana (ou melhor, uma mente Hollywoodiana) poderia uma história tão complexa e profunda tomar forma, reunindo tantos conceitos mas se mantendo original, honesta, crível.
Assim como em O Cavalheiro das Trevas, Nolan não deixa que a temática do filme o limite. Filmes de super-herói não precisam ser infantis e sem profundidade, e ficções científicas não precisam ser pura diversão mental cheia de efeitos especiais 3D. Nolan consegue neste filme mais uma vez chegar a um nível de profundidade emocional e mental raramente visto em dramas hollywoodianos, que dirá em filmes de ação e ficção.
E me perdoem se nesta crítica falarei apenas no diretor (poderia falar das atuações, dos cenários, da edição, das cenas marcantes), mas tenho um bom motivo – desde sua estréia no cinema doze anos atrás, um filme não era tão Nolan como este. Em todos os outros filmes ele ou fez parceria com seu irmão (Jonathan), adaptou o roteiro de um livro ou filme existente, ou continuou uma saga. Em A Origem, Nolan escreve, dirige e produz algo que vem criando há dez anos. É um filme para ele e sobre ele. Não, não é uma autobiografia ao estilo 8 ½, mas certamente possui diversos pedaços do que ele acredita, sente e explora em sua vida – inclusive temas já tratados em suas obras como percepção do tempo, memória, realidade e complexidade da mente.
O filme possui uma trama até simples: Cobb (DiCaprio) é um ladrão especializado em acessar mentes através de sonhos compartilhados e roubar seus segredos. Ele é contratado por Saito (Wantanabe) para fazer algo um tanto mais complexo – plantar uma idéia em um concorrente de Saito, o que diminuiria a competitividade do império da vítima. Durante este processo conhecemos sua equipe, seu passado, e até seus mais preciosos sonhos.
Mas se a trama parece simples, entender o filme em sua total complexidade é outra história. Espero assisti-lo pelo menos duas vezes antes de ousar concluir algo sobre o que aconteceu. O mais importante não é entendê-la por completo, mas aproveitá-la. Aproveitar sua beleza visual, aproveitar os convincentes personagens e cenários, aproveitar as surpresas e os desfechos dos seus atos. E não perca tempo refletindo sobre o que aconteceu durante a exibição do filme – garanto-lhe que passará boa parte da noite recapitulando cenas e tentando chegar a conclusões. Não importa qual das explicações você aceitará melhor (percebi que existem pelo menos três, todas plausíveis), será uma viagem inesquecível.
Ao invés de analisar a trama, concluirei com a importância desta obra. Não apenas já é um dos grandes filmes em crítica e bilheteria do ano, como, assim como Matrix, fortalece um gênero ao mesmo tempo em que abre espaço para um novo mundo de filmes que certamente seguirão seus passos. Chega a ser revoltante o quão perfeito o filme é em tantos aspectos, funcionando como ficção, drama, romance, ação – como um produtor Hollywoodiano eu sentiria um frio na barriga ao pensar como os elementos deste filme poderiam ser “explorados” em trilogias, longas séries, múltiplas sagas. Nolan concentra tudo em um só filme e não se deixa cair em clichês e exageros. Ele ainda evita o 3D corretamente, que apenas tiraria méritos do filme sem nada contribuir, e faz tudo – eu digo tudo – da maneira correta.
Se foi dito ano passado que James Cameron ainda era o rei do cinema, bem, acho que agora sim podemos reconhecer o verdadeiro monarca de Hollywood.
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