Direção: Walter Salles e Daniela Thomas.
Elenco: João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique de Jesus Santos, Sandra Corveloni, Ana Carolina Dias.
Recentemente, em uma de minhas críticas sobre o cinema brasileiro, apontei certa falta de amadurecimento em muitas das produções aqui realizadas. Neste momento, estou a enunciar a existência dessa controvérsia. O filme “Linha de Passe”, de Walter Salles e co dirigido por Daniela Thomas, nos apresenta, de maneira veemente, a verdadeira realidade na rotina de uma família periférica da capital paulista. Família composta por pessoas que não buscam suas identidades na criminalidade – contrariando a justaposição feita por cineastas que se submeteram a descrever os sonhos dos originários das periferias e favelas -, mas na esperança permeada pela honestidade. Que por sua vez é limitada ao mercado de trabalho informal ou a busca às peneiras de futebol, além da desesperada necessidade de crença, essa última incitada através de igrejas protestantes.
A trajetória da película é regida por interpretações plausíveis, haja vista o desempenho da personagem Cleuza, interpretada pela atriz Sandra Corveloni, ganhadora da Palma de Ouro. Embora colorido, o filme concebe uma fotografia que me remete ao clima noir do estilo Nouvelle Vague de cinema, sobretudo muito visto nas obras de Godard. Entretanto, esta é estabelecida inteligentemente como forma de preservação de uma originalidade atmosférica, típica do habitar de classes menos favorecidas.
A parceria entre Walter Salles e Daniela Thomas, percorre nesse trabalho, por uma trilha à margem dos chavões sociais já expostos nos cinemas brasileiros. Não há relevância em saber se a intenção deles foi ou não diferenciar sua obra das demais produções nacionais que se submeteram a discorrer sobre o assunto em questão. O importante mesmo é que conseguiram. Pois nos possibilitaram sermos cúmplices de uma solidez envolvente, que traduz a narrativa no gesto, na espontaneidade que os abstiveram da especulação ou banalização dos fatos.
É preciso reconhecer que o cinema mexicano, argentino e, em proporção ainda que menor, também o cinema brasileiro têm rompido com a hermética das premiações européias e americanas. Por outro lado, devemos nos tornar capazes do discernimento para o real valor de tais obras. Pois muitas alcançam tal prestigio desprovidas de critérios para exprimir suas idéias ou insinuações. É, para mim, de grande notabilidade, perceber a profundidade da proposta através da sutileza com que os diretores de “Linha de Passe” conduziram o longa. Construindo em situações aparentemente simples, a complexidade. Pois o que se pode apreender na busca do personagem Dario e de seus demais irmãos como uma busca para uma identidade, pode ser ainda mais profundo se pensarmos que tal busca encontra-se associada à obsessão para provar a sociedade que possuem postos de cidadãos, exageradamente exigido pela mesma através de um determinado nível social. Transmitir na cena em que um jovem, filho de uma serviçal, é convidado pelo filho da patroa de sua mãe, a participar de uma “pelada” no condomínio de classe média e, demonstrando sua habilidade, torna-se hostilizado pela intolerância de um dos moradores do respectivo condomínio, que por sua vez; diante de uma indagação sobre sua atitude inóspita, exclama ” Ta bom, agora eu também vou trazer o filho da minha empregada para jogar em meu time!”. Nos mostra o desprezo que sentimos por essa dicotomia e ao mesmo tempo nos afirma que insistimos em permanecermos demagogos, quando pensamos não sermos complacentes com tamanha estupidez, arrogância. Quando vamos ao cinema e contemplamos nossas ações inconseqüentes através de determinadas mensagens, sejam essas pragmáticas ou metafóricas, precisamos suprimir a indolência e enxergar a verdadeira essência que nos compete, pois essa oportunidade não se encontra em uma esquina qualquer.
Bom, ao que me resta, diante do exemplo de lucidez apresentado através de uma obra cinematográfica e, sobretudo brasileira, devo parabenizar o Walter Salles e a Daniela Thomas por nos exemplificar que nem tudo está perdido em despeito de nossas consciências. Que ainda há entre os membros da classe artística, os que enxergam além da ilusão. E, em maior importância, os que se encontram cientes de que o grande problema não está na pobreza, mas na ignorância. Os que notam na ignorância, a grande responsável por agravar ainda mais as dificuldades da população carente. Tornando o cotidiano das pessoas que vivem nesse contexto em um purgatório. Onde se houve a perturbadora ironia: “Vai para onde assim, fazer exame de fezes?!” diante de uma simples vestimenta formal, entre outras tantas provocações gratuitas e desnecessárias. Devemos, sobretudo, parabenizar os idealizadores do filme por nos mostrar que se as classes políticas atenuassem a ignorância, não nos absteríamos em refletir sobre determinadas ações por serem provenientes de realidades menos favoráveis economicamente e desprovidas da educação, que por sua vez lhes proporcionariam a noção devida de civilidade e do que é realmente necessário para tornar suas vidas melhores, mas, discorreríamos sobre tais ações nos baseando no caráter individual de cada cidadão. E isso, em minha opinião, é mais evoluído.
Prêmio de Melhor Atriz para Sandra Corveloni, no Festival de Cannes.
Tito Oliveira
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