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Meia-Noite em Paris

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Direção: Woody Allen.
Elenco/Vozes: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Michael Sheen, Kathy Bates, Carla Bruni, Alison Pill, Tom Hiddleston, Léa Seydoux, Adrien Brody, Kurt Fuller, Corey Stoll, Mimi Kennedy, Gad Elmaleh, Nina Arianda, Marcial Di Fonzo Bo, Adrien de Van.

Outro dia me peguei pesquisando o preço de coisas que não posso comprar. Não era pelo preço de carros 0 km que eu procurava. Nem por computadores, celulares ou outros apetrechos de última geração. Também não estava atrás de roupas super na moda e super caras. Meus trapos ainda me caem bem, ainda suporto o transporte público e meu computador ainda dá conta do recado. O que procurava mesmo era um toca discos. É, isso mesmo, um daqueles aparelhos nos quais se colocavam os discos de vinil e eles emitiam a música que estava no disco. Pode-se adjetivar de várias maneiras estes aparelhos, indo de ultrapassado a desnecessário. Eu prefiro chamar de fascinante.

Tenho a constante impressão de que o presente é completamente decadente quando se trata de cultura. Nada hoje consegue representar um décimo do que significava The Beatles, Elvis Presley ou Bob Dylan criando suas melhores canções. Ou da boêmia literária parisiense dos anos 20 encabeçada por Hemingway e Fitzgerald. Ou dos anos 50 e 60 do cinema, onde encontrávamos em plena produção uma variedade de cineastas geniais, como Bergman, Fellini e Kubrick. Pode-se dizer o mesmo de quase tudo que se queira. Até sobre o futebol se assim for aprazível. Nada é como antes; nem cinema, nem literatura, nem música, nem futebol, nem filosofia. As luzes se apagaram e os gênios morreram. Os poucos vislumbres da luz que restaram são pequenos oásis em desertos de futilidades, vaidades e interesses econômicos.

Digo tudo isso para justificar a minha imensa aprovação ao último filme de Woody Allen. Meia-Noite em Paris, que teve sua primeira sessão no festival de Cannes deste ano, retrata Gil (Owen Wilson), um romancista frustrado, tanto artisticamente como existencialmente, que precisa se mudar para Paris a trabalho. Mas isso é só a casca do filme. Porque em essência, se trata da representação de um jovem frustrado com a vida e com o trabalho, que possui uma adoração por Paris e a impressão de que tudo no passado é melhor que no presente.

A mágica da coisa (literalmente) fica por conta de um acontecimento inusitado. Vagando por Paris tarde da noite, ele se vê convidado para entrar num carro antigo ao badalar da meia-noite. E é entrando neste carro que tudo se transforma e ele é levado de volta aos anos 20 de Paris (sua época preferida), encontrando personagens inusitados como o casal Fitzgerald, Hemingway, Picasso, Dalí, Buñuel, Cole Porter e Gertrud Stein. Num vai e vem entre presente e passado seus anseios se dissipam e ele se vê diante da vida dos seus sonhos. Mas a adesão a esta vida revela seus problemas e se faz necessário tomar consciência do que passado e presente representam para ele e para todos nós. Faz-se necessário perceber que o problema não está no passado. O problema é com a vida. E nesta direção uma das frases mais marcantes do filme resolve a charada. Nós sentimos que o presente é vazio porque a vida é vazia. Eis a essência da reflexão do filme. Mas para ter a noção completa da reflexão e da sensação que ela causa é preciso assistir o filme.

Allen me pegou sinceramente de surpresa, visto que sempre espero dele apenas um filme acima da média, não algo com o qual eu me identificasse tão completamente como Meia-Noite em Paris, que se tornou um dos filmes dele que mais gosto ao lado de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e A Rosa Púrpura do Cairo.

Com tudo isso levado em consideração, acho que nada mais justo do que considerar Woody Allen um daqueles pequenos oásis de genialidade em meio ao imenso deserto de nossa decadência cultural.

Henrique Torres

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Nota dos Leitores para “Meia-Noite em Paris”

6 Votos
Nota média: 4.83

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4 Comentários para “Meia-Noite em Paris”

  1. Bode disse:

    Amigo Henrique,

    Parabéns pelas contribuições no Blog. Está ótima sua crítica. Esse foi um dos filmes maravilhosos que assisti, mas acabei não escrevendo sobre. Você falou muito bem.

    A cada novo filme que vejo no cinema, acabo lembrando de Meia Noite em Paris e da experiência que foi assistí-lo. Ele tem ainda uma grande vantagem: não é como A Árvore da Vida, que apenas os interessados no estilo específico do filme gostam; ou Planeta dos Macacos, que por melhor que seja, é um bom filme de ação/ficção. É um filme para todos os gostos. Não conheci ninguém ainda que viu e não gostou (adorou).

    Quanto a discussão sobre o passado, creio que você chegou no fim a mesma conclusão que eu cheguei, mas apenas complementando: existe o fator do passado vazio representando a vida, mas também existe o simples fato da mudança. As coisas não se tornam melhores ou piores, elas apenas mudam. Demasiado humanos como somos, atrelamos a essas mudanças coisas negativas. Não são. A personagem da Cortillard aprende isso de forma genial.

    Lendo uma vez Irmãos Karamazov, vi o personagem do pai refletindo sobre o presente: afirmava que o novo mundo estava perdido, era uma geração de desinteressados, sem brilho, sem arte, sem motivação. Que a glória do passado estava morta…

    O livro foi lançado em 1879 :)

    * Reconheço a ideia, mas não a sigo. Sou bastante nostálgico. Nostálgico até de coisas que não peguei! Por sinal, estou doido para comprar um toca discos também. Já peguei alguns orçamentos e já tenho alguns LPs, todos de banda que se separaram (ou morreram) antes de eu nascer.

    Abraços

  2. Vinicius disse:

    Eu creio que o filme tem uma relação tênue com Na Natureza Selvagem, os dois tratam sobre uma fuga, porém, no primeiro, Gil se dá bem, consegue se livrar das falsas premissas e vai à frete para modificar o mundo existente, enquanto Chris, n’A Natureza Selvagem, morre dentro de sua sociedade alternativa de uma pessoa só.

    http://cabanadeinverno.wordpress.com/2011/10/06/meia-noite-em-paris-na-natureza-selvagem-sociedade-do-espetaculo-e-rafinha-bastos/

  3. Chefe disse:

    Demorei a ver esse novo ao Allen, mas também posso dizer que me surpreendeu e me agradou muito.
    Para mim a maior mensagem do filme está na parte da passagem para a “Belle Époque”. Ou seja, o seu passado será sempre o melhor pois seu presente será sempre o mais vazio e complicado.
    Genial!

  4. Marta Ordoñez disse:

    O filme “Meia-Noite em Paris” é uma obra-prima! Mas não concordo que estejamos num deserto cultural. Claro que, em se tratando de programas de televisão eu vejo um deserto mesmo. Por outro lado, estamos na era da internet e com ela poderemos produzir muita coisa. Quem sabe não estamos vivendo numa Nova Belle Époque?

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