Direção: Darren Aronofsky.
Elenco/Vozes: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder.
Tchaikovsky. Um nome plenamente conhecido no mundo da música clássica e nem de longe esquecido pela sétima arte: ainda nesse século um certo herói mascarado se inspirou no compositor russo em uma belíssima abertura enquanto que, décadas antes, filmes como Fellini 8 1/2 já usavam composições dele. O compositor romântico é ainda importante por seus balés, tendo obtido com O Lago dos Cisnes e O Quebra-Nozes grande reconhecimento. Por ser alguém importante nestes três mundos o russo, que teve uma vida bastante controversa sob suspeita de homossexualidade e possível suícidio, teve sua obra escolhida por Aronofsky (Fonte da Vida, O Lutador) e um trio de roteiristas como fonte de inspiração para uma história que, inicialmente, se passaria nos bastidores de uma peça de teatro.
A escolha parece inusitada já que muitos espectadores devem ter se perguntado por que ir ao cinema ver um filme dramático sobre uma dançarina de balé? De fato não fossem pelas indicações ao Oscar e a presença de Natalie Portman muitos nunca teriam ido, o que seria uma pena pois Cisne Negro é um filme tão especial a ponto de questionar a preferência das premiações a outros filmes menos artísticos e interessantes. Sendo possivelmente a obra prima de Aronofsky até aqui, Cisne Negro é um filme completo que conta com atuações brilhantes, história intrigante, direção e técnica impecáveis, mas principalmente cenas fortes e belas que merecem ser vistas na grande tela. Não é um filme tão ingerível como outros bons filmes deste ano mas isso só aumenta seus méritos, já que o peso psicológico do filme apenas agrega intensidade a uma experiência inesquecível.
Além do próprio balé e da trama por trás de O Lago dos Cisnes o filme tem mais um tema importante, que é certamente o mais abordado pelo diretor em suas obras: a obsessão. Já tendo explorado desde a obsessão pela busca por padrões matemáticos até a obsessão pela vida eterna, ele é inclusive reconhecido por ser obcecado pela qualidade dos seus trabalhos. Em Cisne Negro Aronofsky nos insere na vida de Nina (interpretada por Portman, que levará o Oscar), uma bailarina obcecada por sua carreira e pela perfeição que tem, com a oportunidade de estrelar O Lago dos Cisnes, as portas abertas para o sucesso. Porém a sua própria obsessão acaba virando seu principal obstáculo.
Colocando a dança como parte importante do filme, Aronofsky nos apresenta sua beleza e harmonia mas não nos esconde o rigor e sofrimento tão comuns em grandes espetáculos. Retratando fortemente a dor física e psicológica a que os artistas são submetidos o diretor consegue aumentar o interesse e a grandeza da arte apresentada, resultando em cenas de tirar o fôlego até mesmo de desinteressados. É então nessa dualidade que a história ganha peso como trama, já que o lado puro e perfeito da arte é comparado com seu lado sombrio e espontâneo da mesma forma que a personagem principal do balé, Odette, pura e meiga, tem uma equivalente representação sombria. Como o grande diferencial desta versão do balé é usar a mesma dançarina em dois papéis (heroína e vilã), cabe a Nina convencer a todos que pode interpretar ambos os lados tendo que, para isso, explorar seu próprio lado sombrio (o Cisne Negro) e renegar sua fragilidade, pureza, infantilidade.
É aqui que Aronofsky insere um simbolismo importantíssimo no filme: o espelho. Contando com uma quase totalidade de cenas em que aparecem espelhos ou reflexões claras, o filme explora a dualidade em diversos aspectos, retratando os conflitos psicológicos da personagem principal; o sucesso e o fracasso das carreiras, muitas vezes por decisões extremas; e até mesmo a sexualidade, algo natural e prazeroso que no caso de Nina é reprimido por uma relação complicada com sua mãe. E não por acaso o diretor do balé, Thomas (Cassel) já aparece nas primeiras cenas através de um espelho. Thomas é retratado com complexidade, sendo muitas vezes destacado como o gênio por trás do espetáculo para em seguida ser mostrado como um mero aproveitador de donzelas.
Aqui a personagem principal se envolve com outra importante figura: uma nova bailarina (interpretada por Kunis) que chama a atenção do diretor principalmente por seu lado espontâneo e sensual, adequado para a interpretação da vilã e contestador do conceito de perfeição adotado por Nina na sua dança. Mesmo sendo algumas vezes amiga e bem intencionada a nova bailarina não convence Nina, que acaba nutrindo por ela emoções diversas como inveja, raiva e atração. Na medida em que a trama se desenrola a personagem principal aumenta sua obsessão e paranóia, começando a ver partes de si (o lado sombrio, que ela precisa encontrar para o papel) em conhecidos, estranhos e, principalmente, nos espelhos.
E como somos apresentados logo no início a história de O Lago dos Cisnes, que possui um final se não triste certamente fatal, não demora a nos perguntarmos se a viagem psicológica e emocional que o filme retrata não levará inevitavelmente a um final tão dramático como o do próprio balé. E nesse questionamento o espelho tem participação novamente importante, tornando-se um personagem do filme e representando o confronto direto entre os lados puros e sombrios de Nina. É então nesse clima de conflito interno que o filme nos presenteia com um dos finais mais memoráveis do cinema recente: um desfecho emocionante para o balé e para a trama. Será que trágico, triste? Difícil julgar. Eu ficaria com a opinião sugerida pelo próprio filme: perfeito.
Basta deixar um comentário ou enviar um e-mail para
Nota dos Leitores para “Cisne Negro”
40 Votos
Nota média: 4.33
Aproveite e deixe um comentário com sua opinião sobre o filme.


20/2/2011 às 19:48
memoravel
21/2/2011 às 03:55
Sempre é de bom tom por o nome original do fim entre parênteses, não susta na. No caso, Black Swan, pois quando se viaja não se sabe o nome que deram no Brasil, que são tacanhos e toscos para nomes de filmes.
24/2/2011 às 13:22
Simplesmente apaixonada pelo filme.. Muito bom o post tb. Olha o cinema tem alcançado proporções nunca imaginadas, acredito que assim continuará por muitoooooooooo tempo. Uma bela dica é entrar como profissional nesse meio e o IESB em Brasília pode contribuir para isso com seu curso que é de extrema qualidade.
24/2/2011 às 15:35
Marcely, resumiu melhor que eu.
Zardox, boa dica. Verei para a próxima crítica. Porém em caso de dúvida vale uma visita no http://www.imdb.com. Pode colocar qualquer nome de filme, na língua original ou traduzida, que ele encontra e mostra os outros nomes. Sem erro.
Att.
Marcelo Barros
6/3/2011 às 02:28
Sensacional esse filme e excelente a critica. Sou um fã incondicional do Sr. Darren Aronofsky desde que vi o seu primeiro filme PI. Natalie Portman tb é uma grande responsável pela maravilha que é esse filme, apresentando uma personagem em seu extremo físico e psicológico em busca da realização do seu maior sonho. Perfeito!
Vi 3 vezes esse filme.
Um abraço ai ao Chefe e ao Ad que há muito tempo nao mantenho contato. To seguindo vcs no twitter.
8/3/2011 às 14:38
AmO filmes e series, e to louca pra ver o cisne negro
só vi o trailer até agora e parece muiito bom.
Tenha um otiimo dia.
21/3/2011 às 09:52
Me emocionei muito com o filme e agora com a crítica, consegui ir me lembrando dos exemplos do filme… Que maravilha. Bem que meu amigo q faz cinema, no IESB, facul de referência aqui me indicou essa leitura. Vontade de ir assistir o filme novamente agora.
27/3/2011 às 20:23
É um filme muito bonito, com cenas belíssimas! Um filme de opostos, branco e negro, atormentado, como pode ser a vida pessoal de muitos em meio aos seus dilemas, porém, tais ambivalências, “branco e negro”, de experimentação de sentimentos opostos, são mostradas através da ótica do mundo do balé, aliás, aos que gostam de boa música e admiram compositores clássicos o filme é ainda mais atraente, mesmo sendo um drama psicológico, o filme está rotulado dentro da linha dos suspenses, mas no meu ponto de vista vejo-o como um envolvente drama psicológico, repleto de sonhos indizíveis, desejos reprimidos e emoções ao retratar a vida de uma bailarina, que tem que interpretar o cisne negro, no famoso balé: Lago dos Cisnes – um balé composto por Tchaikovsky no século XIX e obviamente idolatrado pelos russos- que se orgulham da Rússia ser o “olho d’água” do balé.
Algumas situações do filme nos remetem a contradições e antíteses, entre o despertar e o lúgubre, vivenciadas em cada um de nós. Ao explorar a entrada do personagem numa espécie de espiral que beira a histeria, o roteiro vai inserindo situações cada vez mais intrigantes para que o espectador afaste-se de sua área de conforto e assim se envolva pelo que vê e, tal como a bailarina, fique sem saber distinguir o que é verdade ou delírio, realidade ou ficção.
A atriz Natalie Portman tem atuação absolutamente natural, mesmo em momentos de pura densidade e lirismo exigidos pelo personagem que interpreta. Sua indicação ao Oscar é justa e fantástica, tal como a apoteótica cena da pirueta. Para aprender a ser ousada no palco, Nina, personagem de Natalie Portman, precisa aprender a ser ousada na vida, ser mentalmente forte para poder superar as pressões por todos os lados e conquistar seus objetivos é um dos relevantes elementos do filme, que mesmo para os que não gostam de balé, de dança, enfim, da manifestação artística evidenciada no filme poderá gostar do enredo se conseguir, o que não é difícil, tamanha a maestria da direção e da condução da obra cinematográfica, “entrar no corpo da dança de Portman para vencer seus limites, por mais tempestuosos que eles possam ser.” Excelente filme para ouvir, sentir, pensar, refletir, construir valores, desconstruí-los, se envolver, enfim, admirar e ver cada detalhe!
22/4/2011 às 13:12
esse filme e legal pra as meninas nao sei pra os meninos tem uma menina da minha escola que e um cisney negroksssssssssssssssssssss como as meninas acho que se emocionaram pq sao sensiveis legal neee
8/6/2011 às 12:56
Taí um filme interessante. Perturbador. Consegue ponderar entre a realidade e os ganchos ao problema real de uma mãe que deposita o sonho na filha, e a fantasia que com os elementos que o faz tomar um ar sombrio.
14/9/2011 às 14:19
Sai da sala de cinema sem entender direito oque houve, oque foi real e o que foi imaginação, muito perturbador mesmo, porém tenho que dizer que fui ver este filme esperando outra história, não que eu não tenha gostado, pois fui surpreendido de uma forma boa, certamento vou ver este filme mais algumas vezes e não sei mais quantos vou ter de asistir para conseguir entender o final por completo.
No que se refera as técnicas de Darren, eu aplaudo de pé, fiquei um pouco irritado com o movimento da camera no começo, pois parecia seguir a pobre Portman, mas logo vi que aquilo faz a gente se sentir dentro do filme vendo de perto o sofrimento de nina e se assustando a cada susto dela. Dialogos geniais, cenas onde o efeito parecia real e atuações explendidas (ném sera necessário citar Portman), a única coisa que achei sem sentido foi a cena entre Portman e Kunis, que realmente não era necessário, pois o filme já tenha todos os ingredientes que eram necessários para ser um sucesso, não tenho nada contra o lesbianismo (e ném a favor) mas o filme estava completo sem isso.