Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her.
[GRAN TORINO – Cena 1]
INTERNA – IGREJA – MANHÃ
Walt Kowalski (Clint Eastwood) é um cara durão. Tão sólido quanto aço, matéria- prima da cidade industrial de Detroit, sua terra natal. No funeral da mulher, o patriarca de coração de ferro recebe secamente seus familiares. Os olhos destinam desdém aos filhos. Aos netos o olhar é de reprovação pela falta de modos na igreja. Mesmo velando a companheira, não é capaz de demonstrar consternação. Tampouco olha para o caixão em sinal de luto.
Durante a missa, ouve com repúdio o sermão do jovem padre Janovich (Christopher Carley). O tema do sermão é a morte. Assunto que conhece bem, mas prefere guardar para si. Ele tem vontade de cuspir. Algo que sempre faz quando está nervoso. Não o procede por questão de respeito.
[GRAN TORINO - Cena 2]
INTERNA – CASA DE KOWALSKI – MANHÃ
Terminado o enterro, Kowalski recebe os convidados em sua casa. Um grande domicílio com pátio modesto e uma grande garagem. É lá que se encontra sua relíquia mais preciosa. O ford Gran Torino, modelo 72, adquirido nos velhos e bons tempos da Ford, empresa que trabalhou boa parte da vida. O sótão da casa é o arauto da nostalgia. Caixas velhas, álbuns de fotos e outras recordações estão espalhados pelo subsolo e passam a ser revirados pelos seus netos.
Algo lhes chama a atenção. É a medalha de condecoração que o avô recebeu pelos serviços prestados na Guerra da Coréia em 1952. A experiência o marcou para sempre. Desde lá, tornou-se um patriota amargo. Um xenófobo anti-social da pior espécie. Preconceituoso a ponto de brigar com os filhos por comprarem carros da Toyota. “Morreria se comprasse um carro americano?” Um septuagenário solitário que passa seus dias na varanda de casa tomando cerveja e conversando com seu cachorro.
Quando o vizinho oriental da casa ao lado bate na porta e lhe pede emprestado um cabo de extensão, ele não o poupa de suas grosserias. O cabeça-de-zíper, como costuma chamar os asiáticos, se chama Thao (Bee Vang), um garoto tímido e sem rumo vivendo num bairro com perspectivas não muito animadoras aos imigrantes.
Alguns dias após o atrito com Kowalski, o jovem é instigado pela gangue do seu primo a entrar para o mundo do crime. Sua iniciação será furtar o Gran Torino do vizinho idoso e solitário. Mas como não tem aptidão nenhuma para a delinquência, Thao acaba sendo apanhado pelo velho combatente, armado até os dentes com revolver e espingarda. O flagrante dará origem a provação mais importante da vida de Kowalski. Em vez de chamar a polícia, ele acaba acidentalmente salvando a vida do garoto que a partir dali terá a vida infernizada pela gangue. A situação acaba o aproximando da família de asiáticos, principalmente de Thao e da sua doce irmã Sue Lor (Ahney Her). Faz amizade com todos, menos com a “vovó”, com quem trava “duelos de cuspe”.
Fluente em temáticas, Gran Torino pode ser visto sob diferentes pontos de vista. Numa maneira superficial é um filme sobre redenção (bem besta, por sinal). Mas numa leitura mais aguçada vemos que Clint Eastwood, também diretor e roteirista do filme, nos coloca diante de uma América suburbana com seus valores em xeque. Um lugar com crianças sem respeito e noção de valores, educados por adultos negligentes e passivos, gerando assim uma família fugaz e desunida que não se vê nem nos dias de Ação de Graças. Os poucos espaços que restam no país, estão ocupados por gente de fora que chegam ali com seus bons e maus costumes. Enquanto isso, a Igreja viceja seu discurso alienante para a sociedade, sem o mínimo conhecimento de causa.
A visão amarga do protagonista, no entanto, não reflete a visão do autor. Ela serve apenas para expor um microcosmo social da sociedade americana, julgado pela ótica de uma pessoa que, se por um lado é preconceituosa e resistente às mudanças, por outro tem lá suas razões. Como na cena em que Kowalski enfrenta uma gangue de negros, prestes a praticar estupro. Ou quando cobra mais responsabilidade de Thao em arranjar uma profissão e escapar do destino comum dos imigrantes do bairro: “As garotas vão para a faculdade. Os garotos para a cadeia”. Usa também o humor quando seu personagem desconhece a descendência hmong dos vizinhos do sudeste asiático. A típica alienação do americano médio -a capital do Brasil é Buenos Aires, disse um certo presidente. É uma pena que Clint contorne os conflitos da história de forma descompromissada e faça uma reviravolta brusca do personagem.
Em vez de ter uma mudança gradual, Kowalski passa do xenófobo odiável ao dirty Harry da paz, que defende os fracos e oprimidos com sua pistola justiceira. O típico personagem-fantoche que exorciza uma vida de pecados capitais num ato de bravura descomedida. Tudo pela coerência do heroísmo. Tudo pelo final hollywoodiano. Tudo pela lágrima do espectador.
Embora seja um americano nato, Clint Eastwood sempre foi um cidadão do mundo. Como ator de filmes de faroeste, ganhou fama pelas lentes do genial artífice italiano Sergio Leone. Quando decidiu se tornar cineasta foi bastante incentivado pelos europeus, sobretudo na França onde recentemente agradeceu o apoio após receber a Palma de Ouro em Cannes pelo conjunto da obra. Recentemente retratou com perfeição a versão japonesa da 2°Guerra no filme Cartas de Iwo Gima.
Após decretar em Gran Torino sua despedida em frente às câmeras, Clint teve a atuação indicada pela Associação de Críticos de Chicago. Chegou-se a especular uma indicação ao Oscar, o que acabou não acontecendo. Um fato curioso é que na sua última tentativa de levar a estatueta ele escolheu um papel muito parecido com o de Henry Fonda (Era uma Vez no Oeste) em Num Lago Dourado.
Quando interpretou nesse filme um velho rabugento que alimenta uma relação difícil com a filha, Fonda tinha 76 anos e sagrou-se o ator mais velho a receber o prêmio da Academia. E assim como Walt Kowalski, seu personagem acaba se afeiçoando com um garoto que não é da sua família. Mas é claro que tudo não passa de uma coincidência. O fato é que Clint, nunca foi um ator genial, embora tenha tido grandes momentos, como em As Pontes de Madison, por exemplo. Coisa que não importa muito se considerarmos sua impecável e vitoriosa carreira de cineasta. Afinal, não dá pra vencer todas.
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Nota dos Leitores para “Gran Torino”
27 Votos
Nota média: 3.89
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26/3/2009 às 08:52
Clint é uma figura capaz das coisas mais absurdas e imagináveis, mas dessa vez ele fez uma auto-biografia. Clint xinga nossa geração de maricas, aquele pivete que ele ajuda é a simbologia da nossa geração. Curioso o Clint “voz de veludo” cantando. Ah, o Clint pode tudo.
26/3/2009 às 23:38
gostaria primeiramente de parabenizar pelo blog e pela abertura que vcs dão aos leitores, que escrevem as criticas (sempre construtivas e inteligentes) para serem postadas aqui.
sou postador do CINEMA E PIPOCA e gostaria de saber se vcs nao querem fazer uma “troca de links” comigo… seria bastante interesante e poderiamos ajudar um ao outro a divulgar nossos endereços.
desde jah grande abraço e agradeço a atenção
27/3/2009 às 08:22
Vamos sim Eder. Manda um email pra gente e conversaremos melhor.
27/3/2009 às 09:15
Bem interessante a resenha.
Clint Eastwood sempre faz valer cada centavo do ingresso.
Se for permitido apenas não concordo – e até me espanto – com afirmação de que a “Igreja viceja um discurso alienante e sem conhecimento de causa”.
Com um pouco de conhecimento de história (e de causa) e gosto pelo cinema a gente sabe que alienante mesmo é este último.
Vá lá, a gente gosta de ver filmes e coisa e tal. E até acreditamos em um ou outro dado tratado como histórico.
Mas, sinceramente, para ver realidade mesmo é necessário desviar os olhos do telão.
Um breve olhar para a história da civilização ocidental vai nos revelar um contributo da Igreja nada aproximado da alienação. Por exemplo, hospital é uma invenção da Igreja. As universidades e o sistema universitário também. Até o Método Científico, tão endeusado hoje em dia, é coisa dos padres. O direito internacional, é outro exemplo. Existem cerca de 35 crateras na lua com nomes de jesuítas astrônomos. Aqui no Brasil, em algumas reduções indígenas os índios eram ensinados a fabricar violinos!
Claro, a gente sabe que o cinema sempre vai mostrar o que lhe é afeto com uma lente dourada, e o que não é de modo contrário.
Mas, aplicando os filtros certos de correção (senso crítico) conseguimos superar estes viéses e desfrutar dos filmes sem grandes problemas entre realidade e ficção.
Vou dar uma olhada neste filme, com certeza.
Abraço
27/3/2009 às 09:59
Mas Miguel, colocar indios para fabricar violinos não é uma aberração? Não poderia ser considerado um processo alienante com o intuito de acabar com a cultura própria dos indios e “empurrar” a “cultura superior” da Igreja?
Tenho quase certeza que os indios estariam bem melhor se nunca tivessem sido apresentados aos “espelhinhos dos colonizadores”, o que dirá dos violinos.
27/3/2009 às 11:56
Heheheh, tem lá seus méritos o seu argumento. Mas eu não pactuo com esta tendência atual meio ingênua de “deixar tal cultura como está” como se fosse algo sagrado, intocável. A evolução cultural é inevitável.
Por outro lado veja, o espírito humano é livre. Você pode escravisar o corpo, mas não o espírito. Por isto só pode haver uma real e profunda inculturação superior se o recebedor dela a adotar livremente de coração. E se esta cultura for de fato melhor, é claro. Se eles não se motivassem, nada resultaria além de escravidão.
Aprender a fabricar violinos significa ascender ao sublime da música clássica. É mostrar a uma cultura – a indígena – que ela pode mais. É dar-lhe instrumentos. Digamos que comece com a fabricação do violino, mais adiante, pelo inevitável contato com a música, surge um compositor indígena. Com a sua contribuição própria vai acabar influenciando a música clássica daquela cultura superior. Resultado, a cultura humana geral lucra.
Se não fosse esta inculturação superior nos EUA hoje não teríamos o cinema, mas sim, talvez, algum show de cocares, tacapes e dança da chuva, não é?
Mas se quiser fazer uma crítica real à Igreja eu mesmo o ajudo. Foi quando os produtos destas reduções, por serem melhores e mais baratos, começaram a atrapalhar o comércio tradicional. Neste ponto a Igreja falhou tragicamente e mandou fechar as reduções. Isto, para mim, foi um grande erro.
Finalizando, creio que os índios estariam melhores não sem a contribuição cultural do homem branco, mas sem a bagagem patológica que os vitimou amplamente. Isto é que foi lamentável.
28/3/2009 às 16:38
Ouço falar bastante desse filme esses dias, preciso ver tambem.
4/4/2009 às 19:50
A resenha de Gran Torino foi profundamente injusta com a grandeza do filme ao reduzí-lo a esgares e esquisitices do personagem. Ele é um belo filme sobre a solidão de um homem como escolha de vida, afastando-se de qualquer convívio convencional – não é preciso suportar uma família mediocre que não lhe dá a mínima – para ficar só com os seus demônios carregados desde a guerra de que participara na juventude. Conservador clássico, é tocado pela injustiça que vê ao seu lado, e então toda a grandeza do ser humano reto e decente se revela, magistral e tocante, na solução que encontra para sí e para os outros.
12/4/2009 às 11:24
Sou suspeito para criticar Gran Torino, pois sou fã de carteirinha de Eastwood. Independente dos seus diversos momentos canastrões, ele é o cara! Lembro de ter assistido Dirty Harry na Globo (!!!) quando era criança, e de ter adorado cada cena. Quando o box saiu em DVD, comprei imediatamente. Isto só para citar um dos personagens dele.
Li um comentário (não lembro de onde) que dizia que Gran Torino poderia ser visto como a redenção de Harry, o Sujo. Sou obrigado a concordar. Mesmo com a mudança rápida na personalidade do personagem, que como humanos não podemos simplesmente massacrar (afinal, que idoso não resistiria a uma menina doce como a Sue Lor), o filme nos faz rir nervosamente em diversos momentos, e nos emociana bastante nos últimos 30 minutos.
Eu me dou como completamente satisfeito com o último papel de Clint diante das telas, fechou com chave de ouro. E fico feliz também, por saber que há uma tonelada de filmes dele por aí que ainda não vi.