Direção: John Patrick Shanley.
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams, Viola Davis, Alice Drummond, Audrie J. Neenan, Susan Blommaert, Carrie Preston.
Na superfície ornamentada da sacristia da igreja St. Nicholas, no Bronx, o padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) declama seu sermão com palavras macias e serenas: “O que vocês fazem quando não têm certeza de algo?”. Estamos em 1964, ano seguinte à morte do presidente John Kennedy, a quem o pároco utiliza como metáfora para exemplificar o estado de desorientação que por vezes sentimos. Seu rosto revela feições harmoniosas na medida em que desfaz os nós de sua parábola sobre o sentimento de dúvida, tópico principal do seu discurso.
Em meio ao sermão, um vulto negro se levanta e anda na direção do padre. As botas lustrosas espocam no chão em passadas pesadas e onipotentes. Quase ao pé do altar, a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep) ouve a oratória de queixo erguido e olhar de reprovação contida. O rosto impetuoso não esconde a frustração.
Com esse prelúdio de seres opostos podemos pressentir a atmosfera de conflito que virá em Dúvida, segundo trabalho do há muito tempo oscarizado diretor e roteirista John Patrick Shanley. O filme destacou-se na cerimônia do Oscar por arrebatar cinco indicações, quatro delas nas categorias de atuação. Meryl foi indicada a melhor atriz e Hoffman a ator coadjuvante, enquanto Viola Davis e Amy Adams se enfrentaram no prêmio de atriz coadjuvante. A outra indicação foi pelo roteiro adaptado de uma peça de teatro escrita pelo próprio cineasta.
O epicentro da polêmica abordada no filme se dá na escola da paróquia, onde a irmã Beauvier imprime aos alunos e professores um regime mão de ferro .“Lamento terem permitido canetas-tinteiro aqui na escola. Hoje em dia é tudo do jeito mais fácil”, pragueja ela para uma professora. Padre Flynn tem idéias moderadas e tenta aos poucos fazer a diretora adaptar-se aos novos tempos. As idéias progressistas do pároco e seus sermões nada convencionais perturbam a religiosa devota. E quando irmã James (Amy Adams) levanta suspeita dele num suposto caso de abuso sexual a um aluno, irmã Beauvier encontra o bote certeiro para expulsá-lo da paróquia. Aí é que as interrogações se salientam sobre nossa cabeça. Será que o padre, tão bonzinho e dedicado, é realmente o culpado? Ou a diretora, mais simpática do que uma bacia de roupa suja, é paranóica e se apega em convicções cegas?
Embora o conflito travado entre os religiosos na trama se passe nos anos 60, a questão reflete um problema atual do sacerdócio católico: a pedofilia. Shanley, que no currículo de diretor tem apenas Joe contra o Vulcão, conseguiu em feito notável em 1987. Com o roteiro que escreveu para Feitiço da Lua , ajudou a cantora Cheer a ganhar o Oscar de Melhor Atriz. Em Dúvida, o grande mérito do texto é impor uma dinâmica de mistérios e incertezas nos personagens. O menino que sofre o abuso, por exemplo, demonstra o oposto do rancor quando vê o padre. A mãe do garoto (Viola Davis) talvez saiba a verdade, mas prefere ser obtusa em relação ao assunto. A irmã James, por sua vez, ora acredita ora duvida do que aconteceu.
O desfecho distribuiu pistas para os dois lados para onde a verdade potencialmente se enverga. E aí está um grande mérito do filme. O dualismo dúvida versus certeza, tolerância versus ceticismo travado pelos protagonistas é uma pedrada que escurece o lago de soluções idealizadas pelo espectador. E como o padre Flynn antecipa no seu primeiro sermão: “A dúvida pode ser um elo tão poderoso e sustentável como a certeza”.
Em Dúvida, a intenção de Shanley como cineasta é das melhores, mas sua inexperiência atrás das câmeras ofusca um pouco o resultado. Já as atuações de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman são tão grandiosas quanto inverossímeis. Embora dêem um show de interpretação vemos de mais os atores e de menos seus personagens. É o que se pode chamar de incongruências do talento…
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Nota dos Leitores para “Dúvida”
12 Votos
Nota média: 4.33
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5/3/2009 às 15:50
Não vi o filme, mas já adianto ser a sua crítica provida de boa escrita e muito bem fundamentada.
Parabéns!
9/3/2009 às 13:59
Belo review, não vi o filme ainda por falta de tempo, mas esse texto me levou pra dentro da época do filme de forma inimaginável, muito bem escrito, parabens!
2/4/2009 às 07:26
Olá!
Grande visão do filme, mas não concordo com você quando fala da inexperiência do Shanley, pois acredito que ele quis deixa o filme bem com cara de teatro, promovendo grandes interpretações do que se aprofundar no roteiro. E acho que ele conseguiu, pelas 4 indicações de atores.
Amy Adams e Viola Davis estão sensacionais!
Abraços,
André
3/4/2009 às 10:47
assisti o filme, e acho que o filme não deixa dúvida de que o padre tem uma relação diferente com o garoto negro. e acho que a duvida da Irmã não é nem se essa relação existe, mas a duvida é se ela denuncia ou não,se vale a pena ou não ela abrir mão da vida dela de freira uma vez que ela nao tem provas concretas. o filme coloca em xeque a questao da pedofilia, incluvise a do homosexualismo. acredito que os padre e freiras deveriam casar, pois a necessidade sexual é evidente para o ser humano.
16/4/2009 às 19:11
O filme é um confronto entre o conservadorismo e o liberalismo. O equilíbrio e o diálogo, assim como o poder estavam em choque.O padre com tendencias homo, como também o garoto, seriam punidos pela natureza do gosto, escolha.O padre (+ sábio) venceu.Venceu o bom senso.Apesar de ter culpa por ter dado vinho ao garoto,e este por sua vez sem seu consentimento ter bebido do altar,prevaleceu aqui as idéias do padre o qual a igreja deve atualizar-se conforme o tempo.
29/9/2009 às 14:41
Bem, vi o filme a alguns meses atrás! Muito interessante e com um elenco e roteiro memorável!
Pegando uma carona no óscar 2009 , na minha opinião acho que o filme foi pouco reconhecido por tamanha grandeza da produção! Um premio de atuação que deveria ter ido era de atriz coadjuvante tanto para Viola Dai ou Amy Adams que estão fantásticas!
Um bom filme, recomendo!
19/11/2009 às 17:00
Já faz um tempo que eu assisti o filme, mas eu lembro que tive uma idéia muito boa: na última cena, a Irmã Aloysius confessa, chorando, que tem dúvidas, pensei que seria em relação à igreja mesmo, acho que o ao longo do filme isso vai se construindo, na verdade, desconstruindo, desconstruindo a fé da irmã, ela parece cada vez mais incomodada com a religião e suas entranhas.
1/3/2010 às 17:47
Além da magistral interpretação de todos os Atores (incluindo as crianças), e da completa produção de toda Equipe Técnica, há um reluzente teor filosófico. Sutil, latente, quando expõe uma “força oculta” que nos leva como plumas ao vento. Eficaz, patente, quando denota a falsa certeza que nos comove como se acima do vento fossemos.
Em resumo, eleva a convicção aos louvores da satisfação, alçada por degraus presumidos à índole própria, no lado negro da inconsciência. Mas, junto, transparece a dúvida aos reclames da eterna contradição: quando é bem ou quando é mal? Então, a destruição da escada pela própria índole, o arrependimento tardio, o sofrimento. Assim é a perfeição, puramente imperfeita.