Sangue Negro

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Direção: Paul Thomas Anderson.
Elenco/Vozes: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciarán Hinds, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor.

Esse filme fecha uma seqüência de excelentes títulos lançados (internacionalmente) em 2007. Não preciso mencionar todos os bons filmes do ano, mas o que conta é que temos ótimas opções para as premiações anuais e a sétima arte continua surpreendendo. Dentro deste contexto não é surpresa ver que filmes especiais como Sangue Negro acabem perdendo repercussão em relação a outros mais comentados, nomeadamente Onde Os Fracos Não Tem Vez e Juno. Mas a verdade é que Sangue Negro supera estes filmes em diversos quesitos, sendo para este cinéfilo o melhor filme do ano. Trata-se de uma obra de arte da mais refinada qualidade, uma trama brilhantemente levada e um filme com aspectos técnicos e visuais grandiosos.

No filme, que por sua vez é baseado no livro Oil!, de Upton Sinclair, Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um minerador frio e ambicioso que rapidamente torna-se um bem sucedido explorador de petróleo. Daniel acaba por receber uma dica de um local perfeito para perfuração de petróleo e segue com seu filho (H.W., interpretado por Dillon Freasier) e sua equipe em uma jornada para adquirir os terrenos que cobrem esta área, montar as torres e firmar ainda mais seu negócio. Mas na pacata região ele encontrará desafios e surpresas, dentre eles o padre Eli Sunday (Paul Dano) e um irmão que não conhecia (Henry Brands, interpretado por Kevin O’Connor).

Antes de tratar da incrível atuação do Daniel Day-Lewis, tema normalmente destacado ao comentar Sangue Negro, o filme surpreende de forma indescritível pela sua direção. Fazendo uma introdução original e magnífica o diretor Paul Thomas Anderson mostra que não é excelente apenas em filmes modernizados (em trama, estilo e técnica) como Magnólia e Boogie Nights, mas sabe adaptar-se aos mais diversos contextos mantendo (e aperfeiçoando) sua qualidade. Os quinze primeiros minutos do filme praticamente não possuem diálogos, e nem estes são necessários. A profundidade e beleza destas cenas são únicas. E não para por aí – o modo como a trama é levada, o excelente roteiro, as cenas fortes e complexas, o desenvolvimento das personagens, e todos os aspectos técnicos do filme (com destaque absoluto para a fotografia e trilha sonora), tornam Sangue Negro um filme incomparável.

Ainda antes de Day-Lewis, dois pontos merecem comentários. A já mencionada fotografia, e a intensa trilha sonora. Vejo que muitos se equivocam (como já o fiz) ao julgar fotografia, dada a equivalência da palavra com a da fotografia convencional. Para o cinema fotografia, ou melhor ainda cinematografia, um termo mais próximo da palavra em inglês Cinematography (usada em premiações), não trata exatamente de beleza de cenários, paisagens e objetos da cena, como uma foto trataria. Fotografia é a arte da iluminação de cenários e escolha de lentes, cores e rolos de filme. Cenários e paisagens tendem a ser muito mais méritos da direção de arte do que da fotografia. Comento isso para justificar meu polêmico julgamento de que não observei fotografia melhor neste ano do que a de Sangue Negro. A iluminação e escolha de cores é simplesmente maravilhosa, ajudando (por sua escuridão e densidade) na construção do próprio filme e das personagens. As cenas são tão bem feitas que conseguem destacar por completo aquilo que PTA considera mais importante. Em algumas mais específicas o rosto de Daniel Plainview aparece isolado na tela, nítido em plena escuridão, formando profundas imagens de tirar o fôlego.

E chegamos também a trilha sonora, tensa e complexa como todo o filme, muitas vezes incômoda. De responsabilidade de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, a trilha ajuda significativamente na construção das personagens e na dramatização, fortalecendo ainda mais as sensações do espectador, sejam estas de raiva, tensão, melancolia ou ironia. Vale o comentário de que parte da trilha já havia sido usada pelo músico e por isso esta não pôde concorrer ao Oscar.

Como se não bastassem qualidades para esse filme, temos a atuação de Daniel Day-Lewis, incomparavelmente a melhor atuação do ano. Day-Lewis cria um personagem fortíssimo, de alta complexidade e profundidade, e mesmo que suas características sejam muitas vezes deploráveis e cruéis, é inevitável se encantar com a interpretação do ator. Poucas vezes poderemos apreciar um gênio da interpretação em um papel tão forte. Ainda no elenco temos o destaque do ator Paul Dano, lançado ao mundo por sua memorável interpretação em Pequena Miss Sunshine. Ele assume aqui um papel extremamente difícil, sem contar o desafio de preencher a tela ao lado de Day-Lewis. Mas Dano supera expectativas, participa de cenas excelentes e de extrema importância para a trama, e não se deixa diminuir perante Day-Lewis.

Há ainda dezenas de qualidades que gostaria de tratar, como a trágica e complexa história (e roteiro) – e sua eventual semelhança com clássicos como Cidadão Kane -, o modo de desenvolvimento da trama usado pelo diretor, as claras metáforas ao mundo contemporâneo e materialista, a filosofia por traz da ambição e destruição tratadas no filme, dentre outras. Mas não há nada melhor para compreender a grandeza desse filme do que assistir por você mesmo e, se possível, repetir a dose. Reconheço não ser um filme para todos os gostos e não terei expectativa alguma quanto à premiações (Oscar). Mas mesmo sendo fã inquestionável dos irmãos Coen e de Onde Os Fracos Não Tem Vez, não tenho opção se não a de venerar Sangue Negro como a melhor obra deste ano. Certamente um dos seletos filmes que ficarão na história do cinema. Uma obra de arte refinada, complexa, profunda e detalhista. Um filme com o melhor que o cinema pode proporcionar.

Bodão

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Nota dos Leitores para “Sangue Negro”

31 Votos
Nota média: 3.84

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9 Comentários para “Sangue Negro”

  1. Tarso disse:

    Olha aí o Bodão. Concordo com você, Sangue Negro é imperdível. Eu nem preciso acrescentar nada, você já falou tudo.

    E um aviso para as pessoas. O final é repentino, porém espetacular, principalmente a última frase.

    Paul Thomas Anderson é o diretor do ano, sem querer tirar o mérito dos Coen, mas perceba como o Thomas revela o filme aos poucos e na hora certa, sem a necessidade de criar reviravoltas ou apelar para montagem com flashbacks para provocar surpresa no espectador.

    Diferente do “Michael Clayton”, que insiste em não revelar nada da trama depois de muitos minutos e ainda tem o ritmo confuso. O MC lembra Syriana, mas bem inferior, porque falha com louvor no final do roteiro.

    Com relação a fotografia, eu fico até agora numa dúvida tremenda entre a dele e a de “no country…”. As duas são impecáveis.

    []’s

    Resumindo, o Daniel tem que levar o Oscar.

  2. Bode disse:

    “Thomas revela o filme aos poucos e na hora certa”. Perfeito cara. Queria entrar nesses detalhes também, mas a resenha já ficou enorme! heheh. É impressionante como o diretor tem tranquilidade, nenhuma pressa, ao levar a história. Conduz a trama com a maestria. Ao contrário de tantos filmes apressados e superficiais que vemos por aí.

    Não concordei tanto com os comentários sobre Michael Clayton, eu acabei gostando muito também do filme, gostei do clima e da trama também, mas está em um patamar realmente incomparável. Gostei principalmente do contexto social do filme, como expliquei na resenha. Mas é um filme social com pitadas de arte, ao contrário de Sangue Negro, que é arte pura.

    Em termos de preferência tenho dúvidas em algumas categorias, mas fotografia não. Pra mim Sangue Negro mereceria a de fotografia pelo mesmo motivo que “Onde Os Fracos” merece edição - a fotografia do filme é mais importante e marcante para o Sangue Negro do que para “Onde Os Fracos”. Já edição é o contrário. Apesar da harmonia direção-edição de Sangue Negro ser excelente, o filme tem menos cortes, cenas mais coesas por si só, menos necessidade de encaixe e artifícios de montagem. Já em “Onde Os Fracos” a edição é um dos pontos mais marcantes.

    No mais, bom saber que muitos estão declarando abertamente preferir Sangue Negro. Merecidamente.

  3. Clara Venceslau disse:

    Assisti ontem sangue negro. Daniel Day lewis “levanta o filme” do começo ao fim. A abertura do filme, uma tomada geral pelas terras onde a estória se desenrola, só não é comum em função da trilha, adequada ao clima de angústia que permeia toda a trama. O fundo ideológico - representado pelo enfrentamento entre um jovem pastor ambicioso que sustenta o seu discurso na “palavra de Deus” e um ambicioso empreendedor que sofre de carência sentimental sustenta o seu discurso no desenvolvimento - poderia ser mais bem aproveitado pela direção. O final não chega a ser supreendente, a velha lição de moral americana. Um filme ao gosto dos homens.

  4. Tarso disse:

    Clara,

    Você foi a primeira fêmea sincera que vi. “Um filme ao gosto dos homens”. É isso aí. Eu só discordo com você em relação “O fundo ideológico poderia ser mais bem aproveitado pela direção”.

    O que faltou, na sua opinião, para justificar as ações do Plainview ou as do Eli? Para mim, o filme deixou muito claro quais eram as feridas e como a ambição do Plainview o move adiante. Da mesma forma para o Eli.

    Marcelo,

    Bom argumento para a edição. :) Com relação a fotografia, eu mantenho o gosto pelo No Country, em cada cena, em ambientes abertos ou não, eu achei que o Deakins conseguiu representar os principais sentimentos do filme. O medo, a incerteza e a adrenalina. Eu poderia descrever as cenas mais marcantes, mas o comentário ia ficar muito grande. :) Isso a gente deixa pra mesa do bar. Hehehe.

    É difícil escolher entre esses dois filmes. Poxa. Ano passado foi fácil. :D

  5. Bode disse:

    É.. como já esperado, não é um filme para todos os gostos. Mas vejo que pelo menos você fez críticas fundamentadas, ao contrário de muitos que acostumados com clichês e hollywood, acham o filme sacal etc. Considerei a abertura do filme excelente como início da construção do personagem e da trama. As cenas além de belíssimas, foram na minha opinião adequadas exatamente ao clima do filme, e ainda dá um “tom” épico ao filme. Pelo visto você não gostará também do início de Onde Os Fracos Não Tem Vez.

    Quanto ao fundo ideológico, acho que a questão aqui é o quão óbvio e repetitivo o filme poderia ser. Não gosto de filmes que tentam explicitar o que o próprio contexto já deixa claro. O duelo entre o pasto o empreendedor estão nas entre linhas, como em toda boa arte. Deixar isso tudo claro e “consumível” seria na minha opinião tornar o filme clichêrizado demais. Veja Cidadão Kane, por exemplo, e entenda que tipo de filme Sangue Negro é.

    Ainda sem querer defender de mais o filme, ehhe, mas no final não vi essa lição da moral americana não. Muito pelo contrário. É um final que foge bastante ao conceito de moral. E vale salientar ainda que em termos de moral, poucos países são tão fundamentados na moral religiosa (protestante, e não católica) do que os EUA. Visões deturpadas do país é que levam a esse tipo de conclusão :).

    E ainda na pauta, minha namorada, que assistiu comigo aos principais indicados e também é fã dos irmão Coen, achou Sangue Negro o melhor do ano. E olhe que ela nem gostou muito de Magnólia. Pode não ser para todos os gostos, mas é um “puta” filme.

  6. Clara Venceslau disse:

    Bom, não esperava que a minha opinião provocasse reação nos comentaristas masculinos, inclusive a ponto de ser convocada a namorada de alguém como reforço.rsrsrsr. Falo hoje depois da premiação do Oscar. Pelo jeito, Sangue Negro(com tantas indicações)tb não foi “bem compreendido” pelos votantes da academia. Não quis começar um debate sobre o filme, mas expressar a minha visão. Entendi os comentário, entendi o filme e sua “aparente sutileza”, venceu o melhor. Os Irmão Cohen são o que de mais arejado apareceu ultimamente. Gostaria de deixar uma pergunta no ar: Como seria o filme sem a interpretação magistral de Day Lewis.

    Falta criatividade a abertura do filme por remeter demais a outros tantos, inclusive Westens.

    A final não surpreende por que a lição parece ser: À falsa fé, a morte radical; Ao falso empreendedor, a morte em vida.

    Abraço a todos,

    Fui…

  7. Tarso disse:

    Clara,

    Eu assisti novamente ao filme ontem. E por coincidência, observei e pensei sobre a ausência do Daniel no elenco. Como seria o filme? Continuaria sensacional. Claro que o Daniel representa muito porque o filme é sobre seu personagem, mas há inúmeras outras coisas fantásticas. A direção e o roteiro do Paul Thomas Anderson são merecedores de aplausos. Observe a maneira como o personagens são apresentados ou como eles aparecem numa cena, por exemplo. Os diálogos são suprimidos em certos pontos para deixar o espectador deduzir o que está acontecendo sozinho, baseado em ações e expressões. Isso é muito bom para quem assiste, pois estimula a crítica e a fuga do óbvio.

    A trilha sonora é angustiante. Exatamente para fazer o espectador sentir-se incomodado em certas cenas. Perfeita!

    A fotografia nem se fala. Impecável.

    A direção de arte é outro ponto muito forte. Eu fiquei impressionado com o realismo das coisas naquele lugar que é o fim do mundo. E aliás, acho que merecia mais o Oscar em direção de arte que Sweeney Todd. Sabe porquê? Sweeney Todd é muito homogêneo, com ambientes e cores muito semelhantes em todos os lugares. De certa forma fica menos difícil fazer. Em Sangue Negro não é assim. O filme navega através de alguns anos e em cada período há um trabalho muito cuidadoso em tudo que se vê na tela. Lembre daqueles poços de petróleo arcaicos. Quando for rever, observe o realismo daquilo.

    E não é só a atuação do Daniel é boa. O Paul Dano (Eli Sunday) está parecendo que está num quarto trancado com a maior tranquilidade do mundo. Está atuando como se não existissem câmeras ali.

    Por fim, eu não vi o filme procurando lição de moral. E nem acho que deve existir regras para filmes tipo “tem que começar assim para agradar” ou “tem que terminar agradando”. Filme é arte, qualquer que seja. O diretor passa o que quiser e danem-se as regras.

    []’s

    Uma pena ter levado só 2 Oscar.

  8. Bodao disse:

    Interessante você ter gostado de Os Fracos e não de Sangue Negro. Mas tudo bem, os irmãos Coen também fazem trabalhos magníficos, por sinal sou fã e torci bastante para eles ganharem (merecem há mais tempo).

    Mas tentar julgar filmes puramente por Oscar, não é o caso. Sangue Negro não é o tipo de filme de Oscar mesmo, e eu pelo menos sabia disso. Certo que o Oscar vem mudando e dando mais oportunidade para filmes sérios, mas é preciso um filme razoavelmente bem visto, com impacto popular e reconhecimento para concorrer ao Oscar. Sangue Negro está muito para o estilo “cinema de arte” do que para Oscar.

    Então Sangue Negro foi muito mais venerado em prêmios como o Festival de Berlim (ganhou por direção e trilha sonora e não levou o o urso de ouro pelo merecido reconhecimento ao Tropa de Elite), e ganhou muitos outros como os Film Critics Award da Florida, Kansas, Los Angeles, National Society, o Writers Guild of America (mais renomeado prêmio para roteiros), etc. Além de tudo, é o filme com melhor nota no IMDB dentre todos os concorrentes ao Oscar :).

    Enfim, os cinéfilos gostaram, os críticos gostaram, o público não viu - e por isso a Academia não premiou. Uma pena :). Mas assim como Magnólia e tantos filmes hoje cultuados, fica para história…

  9. Walder disse:

    Concordo com o comentarista acima….”Sangue Negro” não veio com intenções de oscar, de gordas bilheterias ou sucesso de crítica e público….mas pra fazer história e mostrar que ainda existe diretores com personalidade e proeza e da um tapa sem mão, nos que cismam em tentar rimar arte com comércio.

    pode ser que um dia sinta-se ridículos por não terem premiado esse filme com o mais alto dos premios.

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